segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A obsessão de Degas


Como explicado pelo professor González García, os progressivos avanços técnicos do meio, o barateamento e o lançamento comercial da câmera Kodak, facilitou que muitos pintores se dedicassem à fotografia como amadores, sem deixar a pintura. E a este respeito Edgar Degas foi um pioneiro por causa de sua obsessão com a fotografia.


 

"Auguste Renoir y Stéphane Mallarmé"
39 x 28,5 cms.

Museu de Arte Moderna de Nova York
A fotografia foi tirada na casa de Julie Manet,
em Dezembro de 1895.

A imagem acima mostra dois de seus amigos, nada menos do que o poeta Stephane Mallarmé e o pintor Auguste Renoir, posando juntos para Degas. No espelho, como um fantasma Velazquez, podemos distinguir Degas e sua câmera, além de esposa e filha de Mallarmé. Como explicado pelo poeta Paul Valery, a fotografia precisou de "nove lampiões a óleo ...e um terrível quarto de hora de imobilidade dos protagonistas."






 Em outubro de 1895, Julie Manet escreveu em seu diário: "Sr. Degas só pensa na fotografia. Convidou-nos todos para jantar com ele na próxima semana e irá nos retratar com luz artificial." Na verdade, Degas tornou-se um verdadeiro perfeccionista na hora de tirar uma fotografia, orientando os convidados a adotar esta ou aquela posição ou olhar para a câmera em uma determinada atitude. "Em tempos como este, - explicou uma testemunha dessas sessões - seus amigos sempre se referiam a ele com terror real. Se for convidado para uma noite, você sabe o que esperar: duas horas de obediência militar".

domingo, 9 de outubro de 2011

Pablo Picasso sobre a fotografia:


''Quando vemos o que pode ser expresso pela foto,  nos damos conta de que tudo aquilo não pode mais ser  preocupação da pintura... 
Por que o artista insistiria em realizar aquilo que, com a  ajuda da objetiva, pode ser tão bem feito? 
Seria uma loucura, não? A fotografia chegou na hora certa  para liberar a pintura de qualquer literatura, anedota e  arte do tema. Em todo caso, um certo aspecto do tema pertence, daqui por diante, ao campo da fotografia... 
Não deveriam os pintores aproveitar sua liberdade reconquistada para fazer outra coisa? Seria muito curioso fixar fotograficamente, não as etapas de um quadro, mas suas metamorfoses. Talvez percebêssemos por quais caminhos o cérebro envereda para a concretização de seus sonhos. Entretanto, é realmente muito curioso observar que, no fundo, o quadro não muda que a visão inicial permanece quase intacta, apesar das aparências. Muitas vezes vejo uma luz e uma sombra que pus no meu quadro e empenho-me em quebrá-las, acrescentando uma cor que crie um efeito contrário. Quando essa obra é fotografada, percebo que aquilo que havia introduzido para corrigir minha primeira visão desaparece, e que, definitivamente, a imagem dada pela fotografia corresponde a minha primeira visão, antes das transformações trazidas contra minha vontade. ''

sábado, 8 de outubro de 2011

A Era Fotográfica

A fotografia corresponde a uma fase particular da evolução social para o modernismo. A ascensão de novas camadas da sociedade representava um maior significado político e social.
Os precursores do retrato fotográfico, nasceram da estreita relação com esta evolução. A ascensão dessas camadas sociais, em busca da sua individualidade e projeção social, provocou a necessidade da produção em larga escala de novos produtos de consumo, e particularmente da fotografia.
"Mandar fazer o retrato", era um ato simbólico, por meio do qual o público da classe social ascendente manifestava a sua mobilidade social, tanto para si mesmo, como para os demais, e se situava dentro daquele privilegiado grupo que tinha grande consideração social. Este processo transformava, ao mesmo tempo, a produção artesanal do retrato em meios cada vez mais mecanizados e, portanto, mais rápidos.
O retrato fotográfico, desta forma, representa a fase final dessa evolução. Desde 1750, em Paris, desponta, por impulsos sucessivos, a subida das classes médias no interior de uma sociedade cujas bases eram delimitadas pela aristocracia. Com o surgimento do público burguês e o desenvolvimento de seu bem estar material, aumenta também a sua necessidade de projeção social.
A independência econômica dessa nova classe gera também a necessidade de conquista do seu espaço político. O indivíduo ousa individualizar-se. Esse ousado indivíduo precisa, mais do que nunca, de um conjunto de leis próprias, precisa de habilidade e astúcia, necessárias a autopreservação, à auto-imposição, à auto-afirmação e à sua autoliberação. Aprofunda-se a necessidade de encontrar a sua característica manifestação, que esteja em função direta com a sua personalidade de afirmação, e a tomar consciência de si mesmo.
O retrato pintado, que na França era, há muitos séculos, privilégio de alguns círculos aristocráticos, com o advento da fotografia se democratiza. E, mesmo antes da Revolução Francesa, a moda do retrato já começa a ter grande aceitação pelos primeiros pequenos burgueses. Á medida em que afirmava a necessidade de representar-se, essa moda criava novas formas e técnicas de resultado satisfatório. Era a maneira encontrada pela nova classe para expressar seu culto pela individualidade.
Tivemos, assim, o surgimento da “silhouette,” que se constituía em um passatempo, ou seja, recortar, em papel cartão preto, o perfil dos amigos, ou ainda o retrato miniatura, executado por pintores miniaturistas, a "preços módicos". Em 1786 aparecia a técnica da gravação mecanizada do fisiotraço, que se baseava no mesmo princípio do pantógrafo. Era uma nova técnica de gravação de pequenos retratos em relevo, que copiava o perfil humano com escala e exatidão matemáticas.
Estes primeiros procedimentos de transcrição da imagem nada tinham que ver com o descobrimento técnico da fotografia, mas podem ser considerados como seus precursores ideológicos.
Dois meses antes de Daguerre apresentar publicamente a sua descoberta, um grupo parisiense de deputados já havia proposto à câmera que o Estado francês comprasse o invento e oferecesse a ambos, Daguerre e Isidore Niépce - filho de Joseph Nicephore Niépce (1765-1833), que fora na realidade o precursor da fotografia na França e sócio de Daguerre. Em troca, ambos receberiam uma pensão vitalícia e a "França orgulhosamente poderia doar a descoberta para todo o mundo".
Diante da concretização desse acordo, cinco dias antes, mais precisamente em 14 de agosto de 1839, “Daguerre já estava coberto com patentes de sua invenção na Inglaterra, País de Gales e Colônias Britânicas...”.
Não é difícil detectar quais os partidos políticos, ou mesmo grupos sociais, que passaram a tutelar e defender a fotografia neste período, sob todos os aspectos. O seu advento, como já vimos, retratou o período de transição já consumado pela decomposição do mundo feudal e pelo efeito dos novos modos de produção e da avalanche de reviravoltas políticas.
Dentro desse cenário, a classe ascendente traçava sua trilha, sem contudo encontrar seu próprio meio de expressão artística. Procuravam, então, ir se adequando ao padrão aristocrático. Se essa velha classe já não tinha mais nenhuma função política ou mesmo econômica, ainda tinha um ponto a seu favor - era o termômetro do bom gosto da sociedade. Assim, as novas classes emergentes não tiveram outra alternativa senão adaptar os velhos conceitos artísticos da nobreza e suas formas de representação, modificando-as sempre conforme suas necessidades.
Neste contexto, veremos por um novo ângulo as relações que unem a evolução da fotografia com a evolução da própria sociedade. As revoluções do século XIX na França estimularam as transformações sociais que acabaram por provocar o crescimento do capitalismo. A Revolução Liberal de 1830 cortou definitivamente as últimas raízes com a dinastia aristocrática legítima e, consequentemente, as últimas esperanças de uma possível restauração, e contribuiu, com todos os seus esforços, para que a sociedade burguesa pudesse definitivamente se estabelecer com seu poder natural. A França se encontrava na fase econômica aonde a produção artesanal vinha aos poucos cedendo espaço ao empreendimento industrial.
Essas duas realidades econômicas coexistiram durante as duas primeiras décadas do século passado, apesar da primeira se encontrar em declínio e a segunda em amplo desenvolvimento. As máquinas vinham paulatinamente substituindo o trabalho manual. A greve dos gráficos de Paris, em 1830, refletiu claramente este novo estágio de desenvolvimento, provocado pela instalação de máquinas mais sofisticadas, que deixaram sem emprego grande número de trabalhadores, ou reduziram seus salários pela metade.
Este é apenas um dos inúmeros exemplos da nova ordem econômica que foi se instalando aos poucos e produzindo profundas modificações na constituição da sociedade. Grande parte do mercado de trabalho artesanal se proletarizou, suas condições de vida se caracterizavam por uma miséria extrema, e seu papel político ainda era muito insignificante.
Por outro lado, bastou que a indústria e o comércio prosperassem, para que a pequena e média burguesia ganhasse espaço e se convertessem nos pilares da ordem social. "Já não existe nenhuma diferença entre Luís Felipe e eu; ele é rei-cidadão, eu sou cidadão-rei". Esta era a palavra de ordem da época, deixava transparecer a nova consciência que a pequena burguesia tinha de si mesma; suas idéias e sentimentos já eram profundamente democráticos.
Relojoeiros, farmacêuticos, comerciantes de chapéus, alfaiates e todo o público, que possuíam um pequeno capital e instrução primária suficiente para fazer a sua própria contabilidade, mercadores enterrados no horizonte do seu próprio negócio, foram os elementos da camada da média burguesia que encontraram na fotografia a nova forma de auto-representação, dentro de seus limites econômicos e ideológicos. Sua situação econômica iria determinar o caráter e a evolução da fotografia. Sem dúvida, foi este público que pela primeira vez desenvolveu as condições econômicas para que a arte do retrato pudesse ter acesso popular.
Como todas as novas propostas, a fotografia também foi descendo até as camadas mais profundas da média e pequena burguesia, a medida em que também se fazia sentir a importância dessas formações sociais. O novo invento, sem dúvida, havia despertado o interesse de quase todas as camadas sociais. No entanto, sua imperfeição técnica e os grandes custos exigidos para as primeiras tomadas só eram acessíveis naquele momento à burguesia acomodada. Somente alguns aficionados muito ricos podiam se permitir a este luxo.
O processamento fotográfico introduzido por Daguerre era bastante incômodo. A placa metálica deveria ser preparada com a solução de sensibilizantes momentos antes de sua tomada, e ser revelada logo em seguida com vapor de iodo. Os primeiros preparativos levavam de trinta a quarenta e cinco minutos. Para fotografar paisagens, o ritual era mais complexo, porque era necessário transportar grandes barracas, laboratórios ambulantes com todas as soluções químicas.
Quando se tratava de retratos, o prolongado tempo de tomada era um martírio para a "vítima", sendo o fotógrafo obrigado a utilizar "acessórios especiais" para manter o modelo inerte, sem nenhum movimento, enquanto fotografava. Além de tudo isto, a daguerreotipia apresentava inconveniente fundamental: seu processo não permitia cópias da mesma imagem; sua câmera era muito grande, pesando em média cinqüenta quilos; seu preço, na época, era muito alto e pouco atrativo, o que acabou impossibilitando essa conversão em uma indústria importante.
Mas, em todos os países da Europa, a daguerreotipia teve êxito considerável, e mais especificamente nos Estados Unidos sua receptividade foi imensurável. Já no final de 1839, Daguerre enviava seu representante aos Estados Unidos, François Gouraud, com o objetivo de promover exposições e dar conferências sobre o novo processo, para estimular a venda de seus produtos. Nessa época, a sociedade norte-americana ainda não se encontrava totalmente estratificada.
As possibilidades de crescimento ainda dependiam da iniciativa individual. O período seguinte, de 1840 a 1860, não só foi caracterizado pelo florescimento da daguerreotipia, como também da transformação da sociedade norte- americana, do seu estágio agrícola para a fase industrial. Presenciamos, nessa época, o surgimento de uma infinidade de novos inventos como a geladeira, máquinas secadoras, novos sistemas de produção em série, aumento da rede ferroviária e dos telégrafos, entre outras coisas. As cidades cresciam. Era também a época do ouro, e da definitiva colonização do Oeste norte-americano.
Diante de todos estes acontecimentos, a jovem nação se sentia orgulhosa de suas conquistas, e encontrou na fotografia o meio ideal para se eternizar. Os norte-americanos mais ativos e inteligentes estabeleceram inúmeros estúdios fotográficos, ou percorriam os campos e fazendas em grandes carroças transformadas em verdadeiros estádios de daguerreotipia. "Para a jovem democracia norte-americana este novo meio de auto-representação correspondia plenamente ao entusiasmo dos pioneiros, orgulhosos de seu êxito". As tendências embrionárias do signo "fotográfico" desabrocham mais depressa e na sua amplitude quando esse novo meio de representação visual levado à distância.
Uma vez transplantada, a fotografia perde as raízes da sociedade parisiense que a concebeu e as influências às quais ela é submetida nos outros países transformam-na rapidamente. A evolução da fotografia, nestes termos, vai estar em estreita dependência do contexto histórico da sociedade que a adotou. A inexistência de um passado feudal nos Estados Unidos possibilitou maior identificação entre a fotografia e a burguesia industrial emergente.
O momento era ideal e propício para que a sociedade norte-americana também pesquisasse outras possibilidades da tecnologia fotográfica e fizesse com que George Eastman, já em 1880, desenvolvesse os primeiros filmes em rolo de celulóide, e lançasse a primeira câmera portátil Kodak, em escala industrial, democratizando definitivamente a fotografia. Isto também explica porque o jornal nova-iorquino Daily Herald foi o primeiro veículo do mundo moderno a imprimir a fotografia por meios totalmente mecânicos, em 1880, e porque o fotojornalismo norte-americano iria apresentar um amplo avanço, um tratamento totalmente diferenciado e uma grande aceitação por parte dos leitores, incomparável com as demais metrópoles européias.
A fotografia é filha do capitalismo moderno. Sua semente brotou dentro das convulsões sociais geradas pela emergência do modernismo, já no final do século XVIII, e passa a tomar forma nas primeiras décadas do século XIX. Seu discurso visual é o próprio discurso da ideologia racional burguesa. Portanto, a história da fotografia é a própria história da modernidade.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Fotografia, Invenção do Diabo!

De todas as manifestações artísticas, a fotografia foi a primeira a surgir dentro do sistema industrial.
Seu nascimento só imaginável frente à possibilidade da reprodução. Pode-se afirmar que a fotografia não poderia existir como a conhecemos, sem o advento da indústria. Buscando atingir a todos. Por meio de novos produtos culturais, ela possibilitou a maior democratização do saber.
A nova invenção veio para ficar. A Europa se viu aos poucos, substituída por sua imagem fotográfica. O mundo tornou-se, assim portátil e ilustrado.
O homem moderno diante desse novo cenário, não tinha mais tempo para ler. Tinha que ver para crer! Não podia mais contar com a lentidão e imperfeição das imagens produzidas artesanalmente por desenhistas e pintores de sua época.
A sociedade européia levou muito tempo para compreender o real valor da produção fotográfica. Em 19 de agosto de 1839, a Academia Francesa mal anunciava publicamente a invenção do Daguerreótipo e o pintor Paul Delaroche já declarava enfaticamente: "De hoje em diante, a pintura está morta".
Nos círculos mais conservadores e nos meios religiosos da sociedade, a invenção foi chamada de "blasfêmia", e Daguerre era condecorado com o título de "Idiota dos Idiotas'".
O pintor Ingres, ainda que utilizasse os daguerreótipos de Nadar para executar seus retratos, menosprezava a fotografia, como sendo apenas um produto industrial, e confidenciava: "a fotografia é melhor do que o desenho, mas não é preciso dizê-lo".
Baudelaire, um dos mais expressivos representantes da cultura francesa, negava publicamente a fotografia como forma de expressão artística, alegando que "a fotografia não passa de refúgio de todos os pintores frustrados", e, sarcasticamente, celebrava a fotografia "como uma arte absoluta, um Deus vingativo que realiza o desejo do povo... e Daguerre foi seu Messias... Uma loucura, um fanatismo se apoderou destes novos adoradores do sol!".
Com estas declarações, Baudelaire refletia o impacto causado pela fotografia na intelectualidade européia da época.

Um artigo publicado no jornal alemão Leipziger Stadtanzeiger, ainda na última semana de agosto de 1839, ajuda a compreender melhor este confronto:
"Deus criou o homem à sua imagem e a máquina construída pelo homem não pode fixar a imagem de Deus. É impossível que Deus tenha abandonado seus princípios e permitido a um francês dar ao mundo uma invenção do Diabo".(Leipziger Stadtanzeiger, 26.08.1839, p.1).
A nova concepção da realidade conturbou o mundo cultural e artístico europeu. Como entender que a fotografia viesse para ficar, a não ser uma substituição das tradicionais formas de representação?
Já se haviam gasto vãs sutilezas em decidir se a fotografia era ou não arte, mas preliminarmente, ainda não se perguntara se esta descoberta não transformava a natureza geral da arte.
Numa época em que as artes plásticas, o teatro e a literatura passavam por uma série de mudanças com proclamações e manifestos de diferentes "ismos", nasceram novas perspectivas na linguagem fotográfica. Influenciado em uma parte, pelas tomadas de posição, e em outra parte por estar a fotografia passando por um hiato, com a maioria dos profissionais se repetindo dentro dos mesmos moldes, sobretudo de ordem estética. E, por outro lado, também para conquistar determinado prestígio social, já que a sua presença na época não era vista com bons olhos.
Também outros fotógrafos não se conformavam em ver a fotografia "apenas como mero instrumento" para registrar a realidade.
Como não se poderia obter os resultados desejados pela simples aplicação dos processos tradicionais, começam a se desenvolver, novas técnicas baseadas numa grande variedade de recursos, principalmente químicos, novas técnicas de enquadramento e iluminação. A fotografia vai aos poucos perdendo seu poder de "cópia do real" para ser mais subjetiva, intimista, interpretativa, valorizando o discurso de seu próprio autor. As objetivas, por outro lado, foram reestudadas, com o intuito de se obter uma melhor qualidade de imagem e uma focalização mais suave.
A fotografia trouxe consigo a aura da veracidade e seu surgimento contribuiu diretamente para que todos os segmentos artísticos, literários e intelectuais passassem por uma profunda reflexão, evidenciando um dado importante que até aquele momento permanecera intacto: "A concepção que o homem tinha de si próprio".

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A fotografia no Brasil


Em 16 de janeiro de 1840, o daguerreótipo chega ao Rio de Janeiro, trazido pelo Abade Compte, com todo o material necessário para a tomada de vários daguerreótipos, conforme noticiou o Jornal do Commércio naquele período:
“É preciso ter visto a cousa com os seus próprios olhos para se fazer idéia da rapidez e do resultado da operação. Em menos de nove minutos, o chafariz do Largo do Paço, a Praça do Peixe e todos os objetos circunstantes se achavam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela mão da natureza, e quase sem a intervenção do artista”

 Rio de Janeiro (1840)

 

 Enquanto na Europa vivia-se a efervescência cultural, originada grandemente pela revolução industrial e pelo avanço de pesquisas e descobertas em todas as áreas, residia no Brasil, desde 1824, o francês Hércules Florence.
Florence, sugestionado pela leitura de Robinson Crusoé, vê despertada sua paixão pela aventura e pelas viagens marítimas e, aos dezesseis anos, obteve autorização de sua mãe para seguir de navio para Antuérpia, em uma desastrosa viagem, em que Florence foi roubado e teve que refazer o caminho de volta a Mônaco, praticamente a pé, obrigado a trabalhar como desenhista para conseguir o seu sustento.
A aventura vivida por Hércules Florence, na Antuérpia, não o desanimou e, após renovar seu passaporte, embarcou para o Brasil, chegando ao Rio de Janeiro, em 1º de maio de 1824. Sem conhecer o idioma local, foi trabalhar com seus compatriotas, a princípio em uma loja de tecidos de Theodore Dillon, em seguida em uma livraria que pertenceu a Pierre Plancher.
Na livraria de Plancher, por meio de um anúncio de jornal, Florence ficou sabendo de uma expedição científica e resolveu procurar o Barão de Langsdorff, responsável pela expedição e foi aceito como integrante da comitiva, no cargo de segundo desenhista.
No retorno da expedição, Hércules Florence casou-se com Maria Angélica, filha de Francisco Álvares Machado e Vasconcellos, que havia conhecido nos preparativos da expedição na cidade de Porto Feliz, interior do estado de São Paulo. O aventureiro francês fixou residência na Vila de São Carlos, hoje cidade de Campinas, um dos principais centros culturais do estado de São Paulo.
Publicou no Rio de Janeiro, depois de seu casamento, observações feitas durante a expedição Langsdorff, que chamou de “Zoophonie” ou “Zoophonologie”.
Hércules Florence, durante toda sua vida no Brasil conviveu com intelectuais e estrangeiros ilustres, que enriqueceram seu conhecimento e ajudaram-no a desenvolver várias pesquisas e inventos, entre os quais está a criação do Papel Inimitável, cuja importância maior era evitar falsificações em quaisquer títulos de valor.
“O súbdito francês Hercule Florence, que era um cientista notável. Deve-lhe a ciência as descobertas que fez da polygraphia, aperfeiçoada depois sob a denominação de pulvographia, do papel inimitável, cuja importância maior era evitar falsificações em quaisquer títulos de valor, firmados naquele papel muito propriamente denominado inimitável...”
Florence preparou uma chapa de vidro como matriz, escurecida com a fumaça de um lampião, e aplicou uma camada de goma arábica. Após o endurecimento da cola, com uma agulha, desenhava ou escrevia nessa superfície, retirando a cola endurecida do fundo do vidro.
Hércules Florence fez anotações sobre seus inventos e descobertas nos documentos manuscritos entre 1830 e 1862, em francês, num volume de 423 páginas, intitulado de “L’Ami Des Arts Livré à Lui Même ou Recherches Et Découvertes Sur Différents Sujets Nouveaux”. Em um conjunto de três cadernos pequenos de informações, intitulados “Correspondance”, copiou diversas cartas por ele expedidas, em que há referências aos inventos.
Com a Poligrafia, tornou-se possível imprimir numa mistura de litografia e gravura em diversas cores. Foi então que Florence teve a idéia de utilizar a câmera obscura.
Ele escrevia ou desenhava no vidro para poder imprimir na prancha, utilizando-se da luz do Sol, do cloreto de prata ou ouro, como se fossem tinta de impressão, chegando naturalmente a um processo que se aproxima muito ao da fotografia, principalmente quando fez uso da câmera obscura. A matriz era colocada sobre um papel sensibilizado por cloreto de prata ou ouro, o qual era prensado à luz do Sol, obtendo-se como resultado uma imagem.
Na página quarenta e dois, do manuscrito, Florence faz referências às suas experiências com a impressão através da luz solar, processo que originou a Photographie: Dei a essa arte o nome de Photographie, porque nela a luz desempenha o principal papel.”
Personagem importante para o aperfeiçoamento da fotografia foi o boticário Joaquim Corrêa de Mello, que trabalhava na farmácia de Francisco Álvares Machado e Vasconcellos, sogro de Florence, e o auxiliava em suas experiências.
“Nestas pesquisas, com ele colaborava inteligentemente o grande botânico e químico paulista Joaquim Corrêa de Mello [...] (p.149).
Florence também reconhece a importância de Corrêa de Mello, quando registra, na página 103 do caderno Correspondance, a origem da composição do nome fotografia: “Em 1832, assaltou-me a idéia de imprimir pela ação da luz sobre o nitrato de prata. O Sr. Correia de Mello (muito notável botânico brasileiro) e eu demos ao processo o nome fotografia.”
Florence havia manifestado ao botânico Joaquim Corrêa de Mello o desejo de encontrar uma forma alternativa de impressão por meio da luz do Sol, que não precisasse das pesadas máquinas de tipografia, e um meio simples em que as pessoas pudessem imprimir. Corrêa de Mello informou a Florence que as substâncias que poderiam atender às suas necessidades seriam os sais de prata, pois esses sais escureciam em função da luz. Hércules Florence descreveu suas experiências com sais de ouro, na página 46, como uma substância sensível à luz. Certamente foi o primeiro na história da fotografia a utilizar esse método.
O cloreto de ouro é um material fotossensível, não tão sensível quanto o sal de prata, mas possibilita um maior controle sobre o processo de impressão em papéis sensibilizados com cloretos de ouro, apesar do alto custo.
[...] “Esse sal deverá servir de tinta para a impressão das provas. É externamente caro, mas suas propriedades são tais, que me sinto obrigado a preferi-lo ao nitrato ou cloreto de prata, que é quatro ou seis vezes mais barato. Se não se tratasse de pôr cloreto de ouro nos traços, a despesa não seria excessiva, mas é indispensável molhar toda a superfície do papel sobre o qual se imprime. [...:]
Hércules Florence afirmou que o cloreto de ouro produzia melhor efeito no pergaminho Holanda, para carta, e em todos os papéis de qualidade superior. Como o cloreto escurece em contato com a luz do dia, convém molhar o papel à noite, ou em câmara escura. O processo de Florence consistia em emulsionar uma das faces do papel com um pincel, estender as folhas, para que secassem durante a noite. Uma vez que os sais de prata e o ouro são sensíveis à luz, após a secagem eram guardados em pastas bem fechadas, protegidas.
Na página quarenta e oito, do manuscrito “L’Ami Des Arts Livre a Lui Meme ou Recherches Et Decouvertes Sur Differents Sujets Nouveaux”, Florence fez anotações sobre suas pesquisas com urina, sais de prata e ouro.
Leitor ávido, Florence teve acesso a uma publicação de Berzelius sobre uma experiência desenvolvida em 1777, pelo químico Karl Wilhelm Scheele (cit. p. 3), em que o amoníaco reduzia os sais de prata não atingidos pela luz. A partir desse momento, ele e Corrêa de Mello começam a fazer experiências com a urina, pois eles não dispunham de amoníaco na Vila de São Carlos.
[...] exposta ao sol, uma estante simplificada, sujeita à inclinação tal que os raios solares fiquem perpendiculares à superfície que se pinta de preto. Nela se aloja a prancha de vidro, com o desenho virado para dentro; coloca-se entre a prancha e a estante uma folha de papel sobre o qual há uma camada de cloreto, que aí se deixa cerca de um quarto de hora. Sabe-se que o cloreto de ouro escurece quando exposto aos raios solares. Ora, estes atravessam o desenho e só escurecem o papel sobre que incidem e, dessa forma, fica impresso o desenho. Retirada a prova, o desenho mal aparece. Levando-o para a escuridão põe-se em bacia em que se junta água e urina. O desenho torna-se imediatamente preto pela ação da urina; aí se deixa bastante tempo e, ao ser retirado, é posto a secar na sombra. [...]
Há descrições de outras pesquisas em que o amoníaco, ou o hidróxido de amônia, funcionou perfeitamente como agente fixador para obtenção da imagem por meio da câmera obscura, embora a solução forte clareasse demais os desenhos.
Florence tinha plena consciência de que suas pesquisas poderiam levá-lo ao reconhecimento como inventor. Começou a temer o sucesso e a fama que a divulgação de suas pesquisas poderiam acarretar. Deixou registrado na página três, do caderno “Correspondance”, trecho de carta dirigida a Charles Auguste Taunay. Nela lamenta o rumo que a história tomou.
Como são revelações importantes para o entendimento das pesquisas e da história da fotografia, transcreverei um longo trecho dessa carta, que relata suas invenções e os contatos para a divulgação de seus estudos. Temos, além disso, citações ao retrato do índio Bororó, que teria sido colocado na bagagem do Príncipe de Joinville, filho do rei da França, em 1838, um ano antes do anúncio oficial da descoberta de Daguerre:
[...] “Não passarei em silêncio, um incidente que começou em 1833. Veio-me à idéia um dia, era 15 de agosto (1832), que se poderiam fixar as imagens na câmara escura. Realizando a primeira experiência, verifiquei que raios solares passaram diretamente, do tudo mal ajustado ao instrumento, e sensibilizaram o papel embebido de nitrato de prata. Patenteou-se-me, então, que se poderiam imprimir escrita e desenhos gravados (a jour sur) em vidro coberto de negro e goma. Imprimi um anúncio com uma fama a fazer às vezes de cabeçalho, que espalhei pela cidade e que me fez vender muitas mercadorias, porque fazer propaganda desse tipo era novidade para Campinas. Dei ao processo o nome de “Fotografia”. Entre outros desenhos e autógrafos fotografados, imprimi ao sol o retrato de um índio Bororó, que enviei ao Sr. Felix Taunay, que me respondeu com a notícia de o ter colocado no álbum do príncipe de Joinville, por ocasião de sua primeira viagem ao Rio de Janeiro. Certo ano em que estive nessa cidade, se não me engano, em 1836, faleilhe a respeito de tais experiências, mas, quando em 1839 ocorreu a invenção de Daguerre, monologuei: - Se eu tivesse permanecido na Europa, teriam reconhecido meu descobrimento. Não mais pensemos nisso. Não necessito dizer-lhe que o objeto desta carta e falar-lhe de meus descobrimentos artísticos. Preciso, porém, pedir-lhe que tenha a paciência de ler-lhe o conteúdo.
No meio do pequeníssimo número de pessoas capazes de conhecer a Poligrafia, o Sr. é a primeira a quem dela falei em 1831, sucedendo que a acolheu otimamente. Tanto quanto o Sr. tomou parte ativa no desenvolvimento dela. E dela o Sr. falou ao Sr Eduardo Pontois, Encarregado de Negócios da França, o qual testemunhou muito interesse por meu invento tendo-lhe eu remetido, por sua solicitação, nesse mesmo ano de 1831, um memorial em que revelava o inteiro segredo da Poligrafia, acompanhado de duas provas: uma, de um escrito autografo; outra, de um índio Apiacá. O Sr. Pontois escreveu-me que ia encaminhar tais peças ao Ministério do Interior, em Paris, mas jamais recebi algo que me cientificasse de que elas tiveram esse destino.
Contra minha expectativa, dificuldades locais, porque eu trabalhava na província de São Paulo, interromperam o aperfeiçoamento dessa nova arte. Mal grado houvesse eu já concretizado os princípios da escrita e desenhos no papel celular, da prancha abastecida de tinta para toda a tiragem, e da impressão simultânea de todas as cores, de 1831 a 1848, durante um período de 17 anos, (a litografia inventada em Monique foi conhecida em Paris somente 17 anos depois), tive que contentar-me de imprimir para Campinas e cercanias, porque, do ponto de vista da nitidez, a Poligrafia não teria podido suportar paralelo com a litografia, no Rio de Janeiro e na Europa.
Durante esse período, procedi a impressões policromáticas para o Teatro de Itu, para um farmacêutico em São Paulo, para minha fábrica de chapéus, etc..
O público, porém, não entendia coisa alguma disso. Campinas era o único ponto do mundo em que se imprimiam todas as cores simultaneamente, porquanto o descobrimento de Lipmann, em Berlim, que assombrou a Europa, só foi anunciado em 1848, mas a sombra devia cercar as minhas invenções. “

Insistentemente Hércules Florence registrou, em seus manuscritos, seu lamento e pesar por não ver seus inventos reconhecidos pelo mundo. Embora tenha pesquisado e trabalhado em vários inventos, ele jamais conseguiu sequer reconhecimento por um único, mesmo sendo genro do influente Álvares Machado, um dos principais políticos brasileiros e ter travado conhecimento com outros personagens importantes do período: Dr. Carlos Engler, o botânico Joaquim Corrêa de Mello, o Barão de Langsdorff, cônsul da Rússia no Brasil; Pierre Plancher, fundador do Jornal do Commércio do Rio de Janeiro e o próprio Imperador D. Pedro II. Lamentava estar vivendo longe da Europa, onde, tinha certeza, veria seus esforços reconhecidos.

Hércules Florence construiu, de maneira muito rudimentar, uma câmera obscura, utilizando a paleta de pintor e a lente de um monóculo, e conseguiu uma imagem precária da vista da janela de sua casa num papel sensibilizado com sais de prata, depois de quatro horas de exposição. Essa imagem acabou se perdendo, deteriorando-se como tantas outras que ele descreveu:
[...] “Fabriquei muito imperfeitamente uma câmara escura, utilizando uma caixinha, que cobri com minha paleta em cujo orifício introduzi uma lente que pertencera a um óculo. Coloquei o espelho e, a conveniente altura, dentro pus um pedaço de papel embebido de fraca dissolução de nitrato de prata. Depositei esse aparelho numa cadeira, em sala naturalmente escura. O objeto que se representava na câmara escura era uma das janelas, com a vidraça fechada: viam-se os caixilhos,o teto duma casa fronteira e parte do céu. Aí deixei isso durante quatro horas; em seguida, fui verificar e (palavra ilegível por dilaceração da página nesse ponto), retirado o papel, nele encontrei a janela fixamente representada, mas, o que devia mostrar-se escuro, estava claro, e o que devia ser claro, apresentava-se escuro. Não importa, porém; achar-se-á logo remédio para isso..” [...]
Hércules passou pelo mesmo problema outras vezes e, em pouco tempo, teve a idéia de colocar a imagem, obtida em negativo, em contato com outro papel sensibilizado e voltar a expor, sob a ação da luz, obtendo uma imagem na posição correta, ou seja, imagem em positivo. E foi essa mesma idéia que, o inglês, Willian Fox-Talbot, teve.
Na história da fotografia, outros pesquisadores encontraram dificuldades enormes com a questão da inversão de imagens em negativo e positivo. Com Florence não foi diferente:
[...] “Tomei um pedaço de caixilho, escureci-o à fumaça de uma candeia e nele escrevi, com um buril muito fino, estas palavras: “Empresta-me teus raios, ó divino Sol”. Ajeitei, em baixo, um fragmento de papel, preparado como já tive o ensejo de dizer, e o expus ao Sol. Dentro de um minuto, as palavras aí se fizeram visibilíssima e com o maior primor possível. Lavei imediatamente, e durante muito tempo o papel, para evitar que seu fundo também escurecesse. Deixei-o ao Sol, por uma hora, e o fundo do papel adquiriu leve cor. Contudo, o que nele estava escrito continuou sempre inteligível, conservando-se assim o papel, por vários dias, até que simples curiosidade de saber qual seria a ação do calor numa débil porção de nitrato de prata, me induzisse a queimá-lo.” [...]
Florence mencionou também uma fotografia que teria feito da cadeia pública de Campinas. Havia ali uma sentinela que, na fotografia, teria saído negro, quando ele era branco. Na realidade, Hércules Florence havia feito uma imagem em negativo da vista da cadeia pública de Campinas.
A intenção de Hércules Florence era encontrar uma forma alternativa de fazer impressões por meio de a luz solar; já a dos pesquisadores europeus, era a gravação de imagens da natureza por meio da câmera obscura.
Florence faz uma observação na página 158 de seu manuscrito, sobre as experiências da fotografia e fixação da imagem por meio da câmera obscura, sensibilizada com nitrato e cloreto de prata e ouro. Em nenhuma dessas anotações, refere-se às pesquisas realizadas, no mesmo período, na Europa, por Necéphore Niépce, Louis Jacques Mande Daguerre e Willian Fox Talbot, ou mesmo relata qualquer conhecimento de pesquisas anteriores com câmera obscura e sais de prata.
Florence denominava-se “um inventor no exílio” - sentia-se isolado no Brasil. Relatou por diversas vezes, em seus manuscritos, as dificuldades para obter materiais para suas pesquisas, a falta de pessoas que pudessem entender suas idéias. Seus lamentos e angústias ficam evidentes no texto a seguir:
...“Inventei a fotografia; fixei as imagens na câmera obscura, inventei a poligrafia, a impressão simultânea de todas as cores, a prancha definitivamente carregada de tinta, os novos sinais estenográficos. Concebi uma máquina que me parecia infalível cujo movimento seria independente de um agente qualquer e cuja força teria alguma importância. Comecei a fazer uma coleção de estudos de céus, com novas observações, muitas, aliás, e meus descobrimentos estão comigo, sepultados na sombra, meu talento, minhas vigílias, meus pesares, minhas privações são estéreis para os outros. Não me socorreram as artes peculiares às grandes cidades para desenvolver e aperfeiçoar alguns de meus descobrimentos, para que eu me cientificasse da exatidão de algumas de minhas idéias. Estou certo de que, se estivesse em Paris, um único de meus descobrimentos poderia, talvez suavizar-me a sorte e ser útil a sociedade. Lá, talvez não me faltassem pessoas que me ouviriam, me adivinhariam e me protegeriam. Estou certo de que o público, o verdadeiro protetor dos talentos, me compensaria de meus sacrifícios. Aqui, porém, ninguém vejo a quem possa comunicar minhas idéias. Os em condições de as entenderem, seriam dominados por suas próprias idéias, por suas especulações, pela política, etc.”.
Existem duas versões quanto ao local em que se encontrava Florence, quando descobriu que Daguerre obtivera êxito na gravação da imagem. A primeira versão é do próprio Hércules Florence, registrada em seus manuscritos: estava no campo, à beira de um rio, quando um visitante francês lhe deu a notícia.
Em longo e comovente texto, registrado no caderno três, Florence narra suas descobertas e inventos:
“Estávamos em 1839. Encontrava-me no campo, na morada de um amigo. Sentia-me alegre, conversando muito com um de seus hóspedes, homem afável e instruído. Falávamos de diversas coisas, à noite, numa viga, sentados ao luar, à margem do rio. De repente ele me diz: -“Sabe do belo descobrimento que acaba de fazer-se?” -“Não” – respondo.

-“Óh! É admirável! Um pintor de Paris achou um meio de fixar as imagens na câmara escura. Li isso no Jornal do Commércio. Ele focalizou uma chapa de prata, impregnada de um sal que muda de cor pela ação da luz, e chegou até a obter duas ou três cores.”
Senti um choque no coração, no sangue, na medula dos ossos, em todo o meu ser. Recalquei ao máximo o mais rude choque que já me foi dado experimentar e, assim, não perdi a compostura. Formulei-lhe circunstanciadas indagações, mas o jornal só se limitara ao fato. Afirmou-me que não restava dúvida quanto ao descobrimento, porquanto o Sr. Arago fizera a respectiva comunicação à Academia e a Câmara dos Deputados concedera uma recompensa a seu autor. Pus-me, então, a explicar-lhe a teoria desse invento e recolhemo-nos a casa. Não era o mesmo de momentos antes; tudo, em mim, era melancolia, estendida ao que havia em derredor. Os objetos e os sons faziam-se confusos. Apesar disso, sustentava razoavelmente minha parte da conversação, nessa reuniãozinha de amigos. Sofria. Ceei, é verdade que com bastante apetite, e fui deitar-me crente que uma noite tormentosa me esperava, porque meu mal estar moral era intenso. Dormi, no entanto, passavelmente bem, entretanto.
Não saberia dar suficientes graças a Deus, por haver-me dotado de uma alma forte, o que, antes dessa prova, eu desconhecia.
Vários meses depois, meu interlocutor assegurou-me que percebera minha perturbação. O dia que sucedeu a tão agitada noite, montei a cavalo, com meu companheiro de Campinas. A viagem e os cuidados do negócio serviram para distrair-me. Minha dor voltava como que por acessos, mas pouco a pouco me resignei.
Passados dias, encaminhava-me a uma residência rural em que se encontrava a mais luzida companhia que já vi no Brasil, que teria sido distinguida em todos os países do mundo. No caminho, observava os feitos de luz das árvores e das folhas: veio ao espírito a daguerreotipia e perturbou-me. Todavia, mais adiante, no campo, esqueci-me de meu sofrimento. Foi a última repercussão do abalo que experimentara. Desde aí, dediquei-me (palavra ilegível) à prova da bomba. Esperei e espero experimentar a mesma sorte, no respeitante à Poligrafia. Soube em 1848, com mais coragem, da invenção de Lipmann, que é Poligrafia, em que eu diversamente obtivera êxito, tanto quanto com o daguerreótipo, porque eu a realizara na perfeição e imprimia simultaneamente todas as cores, desde 1834, aqui, em meu exílio, defrontado por pessoas que nela não enxergavam o mínimo e sem jornais, sem público que fosse capaz de compreender-me. E se alguém entende que esses temores, essas emoções são pueris, lembre-se de que um inventor não pode ser impelido a trabalhos tão pouco lucrativos, se não pelo desejo de conquistar um diploma de imortalidade aos olhos dos pósteros. A glória é tudo para ele. Ainda que acompanhada da miséria, do desprezo e de todos os sentimentos, ela lhe faz às vezes de fortuna, honras e todos os gozos. Portanto, é preciso ter uma alma pouco comum, para ver escapar vinte anos de sacrifícios de toda natureza e não ter efetivamente mérito de sacrificar-se para qualquer coisa que seja útil aos homens”
A partir desse momento, Florence abandonou suas pesquisas com câmera obscura e sais de prata e escreveu em uma cópia do diploma maçônico, conseguido através do processo da câmera obscura sensibilizada com nitrato de prata, que outros tiveram mais sorte. Fez a divulgação de suas pesquisas por meio do jornal O Pharol Paulistano e Jornal do Commércio do Rio de Janeiro, sem obter êxito e o reconhecimento esperado.
A segunda versão é narrada pela historiadora Chloé Engler de Almeida (bisneta de Carlos Engler), a qual afirma que Florence mantinha algumas amizades na cidade de Itu, e que se reuniam freqüentemente. O amigo mais próximo era o médico austríaco Karl von Engler, que possuía uma clínica de saúde no sítio Emburu, na cidade de Indaiatuba, equipada com uma sala de cirurgia e laboratório de química, além de uma vasta e atualizada biblioteca. É conhecido no Brasil como Dr. Carlos Engler.
“Hércules Florence é dos meus mais caros amigos. A amizade que nos é feita de confiança e compreensão mútuas. Florence é gênio, mas muito modesto. Homem de vasta cultura está constantemente à procura de novos conhecimentos. De uma feita, veio me contar, muito em segredo, que havia descoberto uma maneira de fixar a imagem sobre chapa de aço polido.
Essa descoberta lhe havia custado muitas noites mal dormidas e dias de exaustivas experiências. Aconselhei-o a divulgar a sua invenção, única no mundo, pois até essa data a maneira de fixar uma imagem era deficiente e inadequada. Florence, modesto, deixava o tempo correr, obrigando-me também a guardar seu segredo.”
Segundo a historiadora, o Dr. Carlos Engler descreve o episódio em que Florence toma conhecimento da descoberta de Daguerre, quando estava em sua residência acompanhado de amigos.
“Todas as tardes, como velho costume, nós nos sentávamos à porta de minha casa – o Hércules, eu e mais uma meia dúzia de amigos. A prosa era geral; pouca maledicência. Quase sempre discorríamos sobre política, pois as idéias liberais dos brasileiros tomavam vulto. Numa das vezes, o Hércules trouxe consigo uns compatriotas, e a prosa discorreu toda em francês. Esses franceses estavam de passagem por Itu, rumo a Mato Grosso. O Certain, que era nosso companheiro de prosa, ainda não havia chegado.
De súbito, aparece ele, nervoso, quase a gritar: “Boa tarde! Vocês já souberam da grande notícia?” Ansiosos, esperamos. E ele: “Fiquem sabendo que Daguerre, na França, acaba de descobrir o modo de fixar a imagem sobre chapa de aço polido! Não é formidável?
Os franceses ali presentes não se mostraram surpresos, pois já sabiam das experiências de Daguerre. Olhei para o Florence que, muito pálido, parecia prestes a desfalecer. Certamente, muito desapontado, não compreendia o que se passava. Hércules Florence, ao constatar que o seu silêncio fora a causa da perda de uma glória que deveria ser sua, não suportou o impacto. Teve uma síncope, e se eu não o amparasse, teria batido com a cabeça no chão. Transportado para dentro de minha casa e deitado num sofá, socorri-o às pressas. Felizmente, recuperou logo os sentidos, conservando, porém, uma expressão abobalhada, perplexa.
Pela modéstia, o Brasil deixou de ser o berço de uma das mais notáveis invenções deste século.”
A genialidade e a criatividade de Hércules Florence são inegáveis, suas experiências e seu interesse pelas artes são inquestionáveis. Mantinha vasta correspondência com eminentes personalidades brasileiras e estrangeiras, participou de uma das mais importantes expedições que percorreu o Brasil, tinha amigos ligados à imprensa, relacionava-se freqüentemente com pesquisadores e cientistas mundialmente conhecidos, cultivava laços de amizades e parentesco com políticos, comerciantes, e até mesmo com o Imperador D. Pedro II. Mesmo assim não quis ou não pôde divulgar seus inventos, estudos e descobertas. Talvez, como afirma seu amigo Dr. Carlos Engler, “a modéstia o tenha impedido de alcançar sua glória como um grande inventor.”
Para o Prof. Dr. Etienne Samain; “Querer isolar Hércules Florence de todo movimento de descobertas e curiosidades exasperadas, emanadas no século XIX, com a Revolução Industrial, com a ascensão do Iluminismo, é algo que não se pode imaginar.”
Hércules Florence permaneceu no Brasil por 55 anos, quase toda sua vida, ausentando-se pouquíssimas vezes da Vila de São Carlos. Após 1830, realizou uma única viagem à Europa, para visitar sua mãe. Esse fato torna-se importante, segundo o Prof. Dr. Boris Komissarov, da Universidade de São Petersbugo, pois o ano desta viagem, 1835, coincide com o período em que Louis Jacques Mandé Daguerre estava envolvido com as pesquisas referentes ao daguerreótipo em Paris e Willian Fox-Talbot estava desenvolvendo suas pesquisas em Londres:
“Durante quase meio século, Florence pouco saiu de São Carlos ou da Província de São Paulo. As raras visitas ao Rio de Janeiro depois de 1830, e a viagem à Europa em 1835, para encontrar-se com a mãe, foram todas as suas saídas. A expedição de Langsdorff ficou para ele não apenas como lembrança, mas como objeto de reflexão e tema de trabalhos literários.”
Essa afirmação não é confirmada, nem aceita pela família, depositária dos manuscritos de Hércules Florence. Seus parentes afirmam que essa viagem ocorreu em 1855, na companhia de sua segunda esposa Carolina Krüg.
É curioso também o trecho da carta de Hércules Florence a Félix Taunay, diretor da Academia Imperial de Bellas Artes, em que ele afirma que já havia comunicado Taunay desde o início sobre suas pesquisas, entregando inclusive um memorial sobre a Poligrafia.
Fica evidente a amizade entre Hércules Florence e o Dr. Carlos Engler, o convívio estreito que os unia. Engler elogia Hércules Florence como pesquisador, inventor e, sobretudo como amigo. Resta saber por que Florence menciona tão raramente seu amigo.
Hércules Florence conseguiu gravar imagens, na Vila de São Carlos, com câmera obscura e sais de prata, seis anos antes de Daguerre,na Europa, valer-se desse mesmo material. Além disso, deixou várias outras descobertas que contribuíram para o enriquecimento das artes visuais no Brasil, como o Dicionário Sinótico Noria, Pneumática ou Hidrostática (1838), De la compreension du gaz hydrogène, appliquée à la direction des aérostats. (1839), Papel Inimitável e Impressão inimitável (1842), Stereopintura, Impressão dos Tipos-Sílabas (1848) e Pulvografia (1860).